sexta-feira, março 04, 2005

Sebastião vai aos trópicos

No Brasil perduram ainda as raízes constitutivas da idiossincrasia portuguesa, já tão esquecidas no Portugal europeu.

É um mundo onde resistem ainda os tropos do Culto do Divino Espírito Santo, do Encoberto, do messianismo cristão-novo, do paracletismo franciscano que espiritualizou as Descobertas.

Autores como Maria Isaura Pereira de Queiroz (Messianismo no Brasil e no Mundo) ou Ariano Suassuna (A Pedra do Reino) estão a recuperar positivamente alguns dos traços distintivos da “Lusitanidade”.

Em S. José de Belmonte, pleno sertão, todos os anos a Associação Cultural da Ordem dos Cavaleiros da Pedra do Reino, de que é “Imperador” o próprio Suassuna, organiza uma romaria com missa campal, sanfona e cavalgada, à sombra das fatídicas pedras. É um espectáculo marcante, pois somos transportados a Alcácer Quibir e, entre mouros e cristãos, revivemos a batalha que levou o Desejado.

Durante décadas interpretado segundo o cânone positivista de Euclides da Cunha, o “episódio” de Canudos é agora visto sob outro ângulo graças a Jacqueline Hermann e Vargas Llosa (“A Guerra do Fim do Mundo”).

No “Reino do Encoberto”, felizmente imune à cartilha de António Sérgio, Hermann dá uma lição de metodologia histórica aos congéneres lusos que desde há anos não fazem senão plagiar-se ad nauseam nas interpretações simplistas e enviesadas que fazem da figura de D. Sebastião.

Em Portugal, desde que em meados do séc. XIX um tal Pretinho deu à estampa umas trovas que identificavam D. Pedro V com o Encoberto, o Sebastianismo não passa de um episódico movimento literário. Já no Brasil acabam de ser divulgados os relatos de um pescador da Ilha de Lençóis que costuma visitar D. Sebastião no seu “castelo encantado".

Para Pessoa, o V Império passa sobretudo pelo que o poeta chamou de Imperialismo Cultural Português (terminologia da época...). Avaliando as dimensões geográficas e populacionais, cabe ao Brasil dar o pontapé de saída...

JTA