quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Será que JMF andou a ler o ON?

Estará a direita à direita?

A volatilidade política do eleitorado, mais uma vez demonstrada no domingo, não facilita a consolidação de projectos com uma base política sólida. O que é, neste momento, um problema sobretudo para a direita, que saiu destroçada das eleições e necessita de encontrar um novo paradigma depois do fracasso de dois populismos gémeos: o do "Paulinho das feiras" na pele de homem de Estado e o do "playboy" errático que ocupava o lugar de primeiro-ministro.

Portas, que parecia hesitar entre propostas mais liberais e a inspiração democrata-cristã, só vingou como o defensor das franjas marginais da população com quem falava, andando de mercado em mercado. Santana, a quem verdadeiramente não se conhece uma ideia política com princípio, meio e fim, procurava sobreviver de "charme" e ilusões antes de, já em desespero, vestir a pele do cruzado que enfrentava os "poderosos". A tudo isto faltava fio condutor e coerência, pelo que não surpreende que o eleitorado desorientado desses partidos tenha migrado para os partidos de esquerda. Populismo com umas pinceladas de "valores" pelo meio, como tentou Portas, ou nu e cru, na versão Santana, mostrou que não funciona quando não é possível fazer a única coisa que, num país com a nossa cultura, agrada ao povo: distribuir benesses e prebendas.

Por isso, quando Portas se queixa do desequilíbrio no debate de ideias em Portugal queixa-se sobretudo de si mesmo e dos que, à direita, receiam enfrentar em terreno aberto uma luta política que, inevitavelmente, também deve ser um combate ideológico.

Durante 30 anos, isto não foi um problema para o PSD. Partido com capacidade para atrair todo o tipo de eleitorados e adaptar-se sem estados de alma ao espírito do tempo, situado algures entre a social-democracia mais conservadora e um liberalismo moderado, tal partido foi-se distinguindo mais pelo que realizava do que pelo que pensava. Foi, por natureza, por oportunidade e graças a alguns dos seus líderes, o mais reformista dos nossos partidos, o que desempenhou o papel instrumental de desconstruir o Estado herdado da Revolução. Só que esse tempo já passou e, entretanto, a sua militância mudou estruturalmente de natureza. Tal como o PS - apesar de tudo um partido com uma base mais ideológica -, depende hoje, das juntas de freguesia a São Bento, do Estado e dos interesses que vivem à sombra deste. Tornou-se mesquinho e conservador e, contrariando os seus pergaminhos, ainda mais impermeável ao exterior e à sociedade civil do que os socialistas.

A tudo isto acresce que, por omissão, cobardia ou cegueira, tanto o PSD como o CDS permitiram que a defesa de uma sociedade liberal, uma sociedade onde os cidadãos são responsáveis pelas suas vidas, opções, sucessos e insucessos e onde o Estado deve agir apenas de forma supletiva, deixasse de ser a sua imagem de marca. Com facilidade, encontramos por isso eleitores que, mesmo subscrevendo esses conceitos, pela sobreposição das agendas civilizacionais às económicas votam sem pestanejar no estatista Bloco de Esquerda.

De resto em Portugal com facilidade se misturam eleitores que, ora vindos da velha direita, ora educados nas diferentes escolas da esquerda clássica, ora incapazes de imaginar que o país pode ser governado de outra forma, preferem uma sociedade dirigida pelo Estado e desconfiam de tudo o que é privado. São eleitores que, devido à ausência de debate ideológico e graças à muito portuguesa tendência para os consensos e para reduzir o espaço da política à "competência" e à "seriedade", vogam alegremente entre partidos de esquerda e de direita sem que, no fundo, "virem" à esquerda ou à direita.

Neste quadro, e quando tanto o CDS como PSD vão realizar congressos extraordinários, o trabalho de casa dos seus dirigentes devia começar precisamente por procurar espaços políticos distintos e diferentes dos de um PS que, mesmo reposicionado ao centro com José Sócrates, é na sua alma um partido que tem dificuldade em não atribuir ao Estado um papel dirigente e sumamente protector.

Dir-se-á: conhecendo os eleitores portugueses isso seria suicidário. A prudência e os calendários eleitorais aconselhariam antes ao continuismo sem sobressaltos, aguardando pelo dia em que o poder regressará quando o PS tropeçar. É só esperar que a crise continue e, com sorte, fazer por estar no lugar certo para recolher os dividendos de nova reviravolta eleitoral.

Esta forma de pensar é tão errada como acreditar que se vencem guerras sem travar batalhas. Pior: se, por omissão, PSD e CDS resumirem a oposição à recriminação ou, por populismo, a gerirem com promessas douradas, podem ver-se reduzidos, se Sócrates tiver sucesso, à existência penosa e triste dos conservadores britânicos, cujo espaço político foi ocupado por Blair. Se, em contrapartida, propuserem uma agenda política sem receio de assumirem a sua diferença e que inclua uma visão de sociedade alternativa às meias-tintas lusitanas, que enfrente os problemas do país com propostas que representem a mesma capacidade de enfrentar os interesses estabelecidos que representaram as políticas da primeira AD ou do Cavaco Silva de há 25 anos, nesse caso construirão bases sólidas para o futuro. Mais: talvez nessa altura os seus militantes e, porventura, os portugueses percebam que os nossos problemas não são apenas de pessoas ou lideranças: são das políticas e das ideias que essas lideranças defendem, encarnam, protagonizam e lhes dão força.

José Manuel Fernandes POL nº 5447 Terça, 22 de Fevereiro de 2005