quarta-feira, maio 11, 2005

Interrompido para obras

Pedimos desculpa pelo incómodo.

Prometemos ser breves.

terça-feira, abril 19, 2005

HABEMUS PAPAM!

BENTO XVI, ATÉ HÁ POUCO CARDEAL RATZINGER, FOI ELEITO PAPA!

GUIADO PELO ESPÍRITO SANTO, A ESCOLHA DO CONCLAVE NÃO PODIA TER SIDO MELHOR.

Data de publicação: 2005-04-18
Cardeal Ratzinger: Peçamos a Deus um novo Papa que nos guie a Cristo
Adverte sobre a «ditadura do relativismo» na missa pela eleição do pontífice
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 18 de abril de 2005 (ZENIT.org).- O cardeal Joseph Ratzinger, decano do colégio cardinalício, presidiu esta segunda feira a missa «pela eleição do romano pontífice», antes do começo do Conclave, na qual pediu a Deus «um novo Papa, como João Paulo II, que nos guie ao amor de Cristo». «Nestas horas, sobretudo, pedimos com insistência a Deus para que, após o grande dom do Papa João Paulo II, nos dê de novo uma pastor segundo seu coração, um pastor que nos leve ao conhecimento de Cristo, a seu amor e à verdadeira alegria», afirmou. O purpurado alemão, que durante duas décadas foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, concelebrou na basílica de São Pedro a solene missa votiva junto aos outros 114 cardeais eleitores e à qual assistiram numerosos cardeais não eleitores (já completaram oitenta anos), centenas de bispos, o corpo diplomático e milhares de fiéis. Em sua homilia, Ratzinger se referiu à maturidade da fé dos católicos e disse que não podem permanecer «imaturos na fé, no estado de inferioridade, já que correm o risco de ser abalados e levados de uma parte a outra por qualquer vento doutrinal». «Quantos ventos doutrinais conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensamento. O pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes abalados por essas ondas, lançados de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao libertinismo, do coletivismo ao individualismo radical, do ateísmo ao misticismo religioso, do agnosticismo ao sincretismo», denunciou o cardeal. Ratzinger acrescentou que cada dia estão surgindo novas seitas, «que enganam aos homens, lançando mão da astúcia que leva a cair no erro». O cardeal disse ainda que, «ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja», é etiquetado de «integrismo». «E isso quanto o relativismo, ou seja, o deixar-se levar daqui para ali por qualquer vento de doutrina, é visto como o único comportamento à altura dos tempos, disse Ratzinger, que denunciou que no mundo atual se vai configurando uma «ditadura do relativismo», «que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida só o de cada um e seus desejos». O purpurado alemão agregou que os cristãos tem outra medida, que é o Filho de Deus, o verdadeiro homem. Ratzinger acrescentou que a fé adulta não segue a moda e a última novidade, «adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo». Em sua homilia, largamente aplaudida, Ratzinger também disse que os sacerdotes estão para servir e que têm que dar um fruto que permaneça. A este respeito advertiu aos homens que querem deixar uma marca nesta vida, afirmando que o que permanece não é o dinheiro, nem sequer os edifícios, nem os livros, «já que depois de um certo tempo tudo desaparece, o que permanece eternamente é a alma humana». A missa foi celebrada em uma basílica belamente iluminada, que deixou aparecer todos seus tesouros. Na oração dos fieis se rezou pela Igreja, pelos cardeais chamados a eleger ao novo Papa, «para que iluminados pela graça do Espírito Santo elejam um digno pai e pastor que se dedique com todas suas forças ao serviço do povo de Deus». Também se pediu por todos os povos da terra, pela paz e concórdia; pelos oprimidos e pelo falecido João Paulo II.

sexta-feira, abril 15, 2005

"The Pope who turned Antisemitism aside"

As a young boy in the 1930s, my father attended public school in Snina, a town in eastern Czechoslovakia. Twice a week, a Catholic priest would come in to teach the catechism, during which the few children who were Jewish were sent to wait outside. As they left the classroom, my father recalls, the priest invariably made some insulting remark about the Jewish people.
For Jews in the Europe of my father's youth, such Christian contempt was a fact of life. Its origins lay in the church's ancient claim that G-d had rejected the Jews when they rejected Jesus and that his covenant with Israel had been superseded by a new covenant with a "new Israel" — namely, the Christian church. This 'teaching of contempt fed an often virulent anti-Semitism, which created the climate for Europe's long history of persecuting Jews. Sixty-five years ago that history culminated in the Holocaust.
Yet not every priest in that era treated Jews with disdain.
Consider the story of Moses and Helen Hiller, a Jewish couple in Nazi-occupied Poland who entrusted their 2-year-old son to a Catholic family named Jachowicz in November of 1942. The Hillers begged their friends to keep their child safe — and, should they not survive, to send him to family members abroad who would bring him up as a Jew. Soon after, the Hillers were deported to Auschwitz. They never returned.
The Jachowiczes came to love the little boy as their own and decided, when the war was over, to adopt him. Mrs. Jachowicz asked a young priest in Krakow to baptize the child, explaining that he had been born Jewish and that his parents had died. But when the priest, some of whose friends had also died in Auschwitz, learned of the Hillers' wish that their son not be lost to the Jewish people, he refused to perform the baptism. Instead he insisted that the Jachowiczes contact the child's relatives.
Today that boy is a middle-aged man, an observant Jew with children of his own. The young priest, whose name was Karol Wojtyla, died last week. He will be buried on Friday as Pope John Paul II, in St. Peter's Basilica in Rome.
When it came to the Jews, John Paul's attitudes were revolutionary. He had grown up with Jews as neighbors and classmates; he and his father rented the second floor of a house whose Jewish owners lived below. At a time when the Polish church could be vilely anti-Semitic — in 1936 the Catholic primate of Poland, Cardinal Augustus Hlond, issued a pastoral letter declaring that ''there will be a Jewish problem as long as Jews remain" and painting Jews as corrupters and atheists guilty of ''spreading pornography" and ''perpetrating fraud, practicing usury, and dealing in prostitution" — the future pope's closest friend was a Jewish boy, Jerzy Kluger. To the young Father Wojtyla, the contempt for Jews and Judaism that came so readily to priests like the one in my father's school must have always rung false, even heretical.
And so he fought it. As a priest in Krakow, he would not countenance the betrayal of murdered Jewish parents by baptizing their child. As a young bishop at the Second Vatican Council, he spoke up powerfully in support of Nostra Aetate, the landmark Vatican declaration that renounced the idea of Jewish guilt for the death of Jesus and affirmed that G-d's covenant with the Jews is unbroken.
In 1979, on his first papal visit back to Poland, John Paul journeyed to Auschwitz, taking pains to emphasize what the communist government of the day took pains to obscure: the Jewish identity of the Holocaust. ''The very people that received from G-d the commandment 'Thou shall not kill,' itself experienced in a special measure what is meant by killing."
''It is not permissible for anyone to pass by this," he continued, ''with indifference."
Milestone followed milestone. In 1986 he paid the first visit by a pope to the Great Synagogue in Rome, where he stressed the debt that Christians owe to the Jews, ''our elder brothers." In 1993, he formally recognized the state of Israel, repudiating forever the old theology that Jews were doomed to everlasting exile, never again to be sovereign in their homeland. He became the first pope to publicly beg forgiveness for Christian wrongs done to Jews.
And in 2000, on a deeply emotional pilgrimage to the Holy Land, he became the first pope to pray at the Western Wall, a moment of reverence for the Jewish faith — and for the Temple that was once its beating heart — that would have been unthinkable for most of the preceding two millennia.
If John XXIII was the ''good pope" who set in motion the great shift in the church's relations with the Jewish people, John Paul II was the great pope who made it undeniable and irrevocable. As he is laid to his rest, Jews and Christians will weep together.


Jeff Jacoby, Jewish World Review


(cortesia NWM)

"A Direita que não há, e o centro que fugiu" por Manuel Azinhal

Nos anos trinta, ao tempo em que o Estado Novo erguia as suas estruturas na terra portuguesa, existiam alguns pilares institucionais onde, segundo os tratados, assentou o seu edifício político.

Como é geralmente apontado, a Igreja, as Forças Armadas, a Universidade (ao menos estes, e sobretudo estes) garantiram à nova situação o apoio, o enquadramento ideológico, os quadros, a base social necessária à empresa.

Como aparelhos de produção ideológica forneceram também a justificação doutrinária e os discursos de legitimação, interior e exterior, do regime.

Se procurarmos analisar o que mudou de então para a nossa época, facilmente reparamos que a Igreja ou desapareceu ou mudou de campo, o Exército subsiste em dimensão miniaturizada e musealizada, e a Universidade fragmentou-se e invertebrou-se, perdendo em peso e influência o que cresceu em volume.

Todas as tentativas das últimas décadas para organizar e representar politicamente a direita, designadamente em partido, com finalidades de intervenção eleitoral, esbarram inevitavelmente nestas faltas.

A quem há-de a direita representar? A verdade é que se não contarmos com uma sensibilidade difusa presente em alguns sectores da população e que normalmente só pode ser despertada por factores passageiros, circunstanciais, não existem instituições presentes e activas no corpo social, de âmbito e dimensão que releve, a reclamar essa representação.

Ora sem as referências institucionais catalizadoras e agregadoras não há forma de mobilizar e manter o apoio de faixas significativas da sociedade, com expressão qualitativa e quantitativa que baste a assegurar uma presença política caracterizadamente de direita.

Também por esse motivo tem acontecido o fenómeno dos políticos que começam a carreira galhardamente à direita para depois com a sua imersão no país político irem surgindo cada vez mais esquerdizados. Confrontam-se com o embaraço de verem as suas ambições e expectativas pessoais tolhidas pelas ideias com que avançaram – e a dada altura libertam-se desse lastro.

O que se passou foi que o centro político, entendendo este apenas como o ponto geométrico central entre as diversas forças que actuam e contam na vida política do país, foi-se deslocando cada vez mais para a esquerda.

Quando o Dr. Salazar proclamava as suas grandes certezas podia falar tranquilamente e apresentar-se como um modelo de equilíbrio e bom senso. Era um moderadão – quase um “centrista”.

Na actualidade, as mesmíssimas convicções serão apontadas como taras marginais, exclusivas de grupos extremistas numericamente insignificantes.

O centro deslizou continuamente para esquerda, de modo a fazer aparecer hoje como comuns e generalizadas, para o cidadão médio, propostas que há umas décadas nem a extrema-esquerda apresentaria, e inversamente a deixar isolados na extrema-direita princípios que há cinquenta anos nenhum sector político com respeitabilidade pública poria em causa.

Por este raciocínio se compreende a utilidade operacional deste conceito de centro político: se ideologicamente é o vazio, como é próprio de um ponto abstracto calculado num espaço dado, a imagem serve todavia para uma visão simples e imediata da evolução histórica da vida de uma sociedade.

E também permite visionar num relance os equilíbrios ideológicos de cada momento político. Procure-se onde está o centro, e logo se perceberá muito sobre a nossa própria situação.

Assim cheguei à magna questão da direita, que tem sido tão focada nestes tempos mais chegados e a que comecei por aludir no início.

Arranjem-se instituições, criadas, construídas de raiz, inventadas, ou recuperadas, ocupadas, conquistadas seja lá como for. Sem elas não parece que a direita possa vir a ter mais do que uma expressão inorgânica, marginal e residual.



Manuel Azinhal, "O Diabo", edição de 12/04/2005

"A (re)fundação da direita (II): Méritos" por Jaime Nogueira Pinto

A discussão pós 20 de Fevereiro sobre a «(re)fundação» da direita teve já alguns méritos:

1. Mostrou que há gente que se afirma de direita, a pensar, a escrever e a debater a direita e as direitas.

2. E a fazê-lo em termos de ideias e polemicamente. Na direita cabem, assim, nacionalistas e europeístas, tradicionalistas e liberais, conservadores e progressistas, estatizantes e libertários, organicistas e individualistas.

3. O que marca, também, o fim de alguns clichés ou preconceitos enquistados domesticamente: que a direita não quer saber de «ideologias», coisa que, prática e empreendedora, deixa para as esquerdas! Que a diferença direita/esquerda é só quanto à economia, a direita pelo mercado e a esquerda pelo «socialismo»! E, finalmente, a versão patética mas ainda ouvida de que a direita são «os ricos» e a esquerda «os pobres».

Parece que já ultrapassámos este estádio primitivo do fundamentalismo «antifascista» ou do fascismo «arrependido» de pôr a questão. Ainda bem, mas aonde estamos?

No meu anterior artigo sobre este tema (EXPRESSO, 12/03/05), sublinhei o problema que Salazar e o Estado Novo colocaram, historicamente, à direita em Portugal: a defesa autoritária de determinados valores religiosos, nacionais, familiares baniu esses valores do mapa das opções ideológicas «democráticas», facto que persiste trinta anos depois do 25 de Abril...

Esta é uma questão que não se deve escamotear. Mas parece me que aqui preguei aos peixes, pois houve quem a tomasse por veleidade «restauracionista». E o tal anátema persiste, a avaliar pelos exercícios de reconstrução e «lifting» de imagem e biografia a que se entregam, ainda, ex-personalidades do anterior regime.

O denominador comum. Deixando estes detalhes e voltando a coisas sérias: se «as direitas» são tão diversas assim, por que é que são «direitas», de direita, o que é que as faz assim e as une? Observadas as coisas, creio que continua a ser a rejeição da esquerda, ou mais exactamente do modelo evolutivo, isto é, do paradigma filosófico e histórico que identifica História e Progresso, no sentido de uma perfectibilidade da natureza humana e das sociedades humanas, através da razão, da ciência e da técnica. Este é o paradigma iluminista, fundamentado pelo optimismo antropológico. E servido, a partir do materialismo finalista de Thomas Hobbes, «com a ideia do Estado ao serviço do bem estar material do maior número», mais o pacifismo «internacionalista» de Kant, as «idades» de Comte e a aceleração revolucionária de Marx e Lenine.

O que une as «direitas» é a rejeição desta descrição da História, do «processo» que lhe é imanente, e deste destino «inevitável» da Humanidade, e da realidade antropológica e social que os fundamentam; não crêem no discurso do progresso, na transformação da natureza humana, no igualitarismo como limite; não partilham o optimismo kantiano da Paz pela Lei nem querem o fim dos Estados e das soberanias inúteis e dissolvidos num espaço económico globalizado.

A partir deste denominador (negativo) comum tudo é diverso: há uma direita «religiosa», isto é, com valores de origem revelada e orientação permanentes, o que não quer dizer que os queira (ou possa) impor a mais ninguém; e há uma direita que não tem tais preocupações transcendentes, optando por viver e deixar viver. Há uma direita que privilegia a independência da nação, a direita com preocupações de identidade e de unidade sociocultural do «povo», que corresponde às direitas «populares» europeias e aos «jacksonianos» nos Estados Unidos; e há uma «direita» que é cosmopolita, «business oriented», internacionalista, «hamiltoniana», em termos americanos.

Esta é uma direita economicamente (e politicamente...) mais anglo saxónica menos Estado, liberalismo ou libertarismo económico social, sobrevivência dos mais aptos (para a competição do mercado). Como a outra, a popular continental, é uma direita economicamente (e politicamente) dirigista, solidarista, partidária da «economia social» e da redistribuição justicialista.

Quanto às novas gerações, o que as leva para «a direita» (a avaliar pelos «blogues») é também a reacção à hegemonia instalada das referências da esquerda, esta cultura político literária mediática do conformismo mais pleno e correcto, disfarçado de retórica inconformista. Penso que, no nosso tempo, foi também o que nos lançou na leitura de escritores «alternativos» que eram então chamados «malditos» - Pound, Drieu, Céline, Von Salomon, mais Jünger e T.E. Lawrence os autores da «Europa negra» e de uma linha de realismo heróico nos antípodas do bem pensante, da cartilha estabelecida, dominante, «correcta», então neo realista ou tecnocrática.

E já dá também para ver, na breve «polémica» entre as «direitas», uma normal clivagem em Portugal entre a geração que viveu a crise do Império e da guerra de Africa (que fez, a par com a questão académica e o «antifascismo», a clivagem histórica esquerda direita anterior) e as gerações que vêm depois, e para quem tudo isso é «archeologia».

Em conclusão, «as direitas» afirmam se, distinguindo se na Direita, combatem e combatem se; e fora de um quadro político partidário cuja ignorância e indigência ideológicas parecem ser reconhecidas e apontadas por toda a gente outro ponto positivo no debate como uma das razões do insucesso conhecido e reconhecido.

A defesa do real. A grande reivindicação da direita tem de ser a defesa da política do real, isto é, de uma política que, sem perder de vista a eticidade e até a perfectibilidade das instituições humanas em ordem aos valores, não perca a referência e o respeito pela natureza do homem e da sociedade, uma natureza que só podemos compreender a partir da História e dos seus mecanismos observados e interrogados, em ternos de crítica da cultura, como fez Nietzsche. Uma realidade que não se deve adulterar, sublimando a ou abaixando a, à mercê de um discurso retórico e de conjuntura, politicamente correcto. Que a esquerda, com felizes mas raras excepções, se obstina em repetir e que hoje, por cá, encontra o seu paroxismo no humanitarismo histérico, inquisitorial e farisaico dos neo trotskistas e de outras intolerantes «famílias democráticas».

Jaime Nogueira Pinto, EXPRESSO, 09.04.2005


(Cortesia “Sexo dos Anjos”)

"A (re)fundação da direita" por Jaime Nogueira Pinto

Russel Kirk dizia que «as ideias têm consequên­cias»... Olhando os resultados do «centro-direita», eu di­ria que a sua falta (das ideias) também!

Esta é a primeira lição a tirar da «hecatombe»: mais que uma «direitização» - como sustenta Pacheco Pereira, que seria a «corrupção» de uma linha geral social-democrata que iria de Sá Carneiro a Durão Barroso -, mais que a aliança com o PP, penso que o problema do PSD, além da divisão à volta da figura do líder, foi a ausência de ideias.

E que ideias tinha este PSD que fossem diferentes das do anterior? E que ideias em geral? Na doutrina «pêessedista», o que se diz da Nação, do Estado, das questões culturais fractu­rantes, da Europa, da proprieda­de, que seja diferente do ideá­rio do PS?

Porque o partido social-de­mocrata em Portugal é o PS; foi assim desde que o dr. Soares afastou ou integrou os esquerdistas do MES e arrumou na ga­veta o socialismo; e passou para a beatitude comemorativa, com direito a cravo na lapela e lugar em S. Bento no 25 de Abril, os MFA e conselheiros da revolução. E fê-lo a partir de 1976, quando lhe deram votos e sossego para o fazer; e para fi­car na NATO e ir para a Euro­pa do capitalismo.

UMA (PESADA) HERANÇA - A política partidária portuguesa reflecte ainda as suas condições genéticas: a legitimidade «antifascista» do 25 de Abril de todos; o peso envergo­nhado da «descolonização» de ninguém; o medo da burguesia do perigo vermelho; o pacto MFA-partidos como alvará polí­tico; e a personalidade dos fun­dadores desses partidos.

No fundo, eliminado o regi­me autoritário e abandonado o Império - dois temas em que a nova classe política era unâni­me -, enfrentaram-se dois mo­delos de sociedade. Um, revolucionário, totalitário e democraticamente minoritário - o de Cunhal e do PCP, com parte do MFA. Outro, comum ao PS, ao PSD, ao CDS e ao resto dos militares, que era de democra­cia política e economia de mer­cado. Socialismo, social-democracia e democracia social foram só etiquetas de recurso ou conveniência.

A direita ideológica foi bani­da e a direita sociológica passou a votar nas etiquetas permitidas; depois de 48 anos sem liberda­des políticas, não era muito es­quisito. Mas o nó do problema nasceu aqui mesmo, desta regra, que a esquerda, em parte por má-fé em parte por estupidez convicta, impôs e explorou com sucesso: Salazar defendera, autoritariamente, um ideário espiritualista, nacionalista, conservador, que proclamava Deus, Pátria, Família. E propriedade! Logo estes princípios - todos - eram antidemocráticos, fascistas e maus. E deviam ser banidos dos projectos políticos democráticos. Mesmo que fossem o apanágio dos partidos conservadores, democratas-cristãos e republicanos da Europa e dos Estados Unidos.

Por isso os partidos baniram-nos e ficaram com valores de esquerda, linguagem de esquerda, «tiques» de esquerda. Pensando que a direita não tem outra hipótese senão votá-los, como mal menor. Um mal menor que foi sendo cada vez maior e pior!

No 20 de Fevereiro, o PCP subiu com o «rosto humano» de Jerónimo de Sousa; o BE, menos «humano», foi o único a falar de política, «reabilitando» o utopismo trotskysta. O PS incorporou uma votação díspar dos seus eleitores, mas também do anti-Santana Lopes e da vontade de um governo de maioria que lhe permitisse governar sem o BE e o PCP. O PSD vai reflectir os traumas da saída de Barroso e do legado de Santana Lopes: a divisão fratricida de uns «barões»; cólera de outros; alheamento da maior parte; e a indignação das famosas «bases». E, à falta de uma identidade de ideias e projectos, a dificuldade de encontrar, fora do poder e sem um chefe, a coesão. O PP esteve unido mas não lhe adiantou muito: a falta de definição quanto à questão nacional - referendo europeu - e a dificuldade de uma credibilidade circunstancial vencer um itinerário que nem sempre a teve, explicam que não subisse, senão em Lisboa, com a transferência dos votos de classe média-alta e alta do PSD.

IDEIAS EM PRIMEIRO LUGAR - Por tudo isto não sairá daqui uma alternativa, porque esta tem de ser por definição («alter», outro) diferente do que está.
Em 1976, depois do Thermidor de 25 de Novembro, a direita - a pensante, a activista, a que tinha ideias e que saía da prisão ou voltava do exilo - encontrou as suas «tropas» da classe média católica e do «campo» do Norte a votar «útil» nos partidos do «sistema».
As alternativas eram o exílio interior, como tinham feito os miguelistas no Constitucionalismo ou os católicos italianos no Risorgimento; ou o entrismo dos franquistas espanhóis na UCD e no PP. Aconteceu o compromisso e distribuiu-se, grosso modo, em três linhas: para o PSD, individualmente; para o CDS com Lucas Pires, organicamente; e para o combate cultural, nas revistas de intervenção e nas universidades.

Hoje talvez seja a altura de começar pelo princípio: pelas ideias.

Que são sempre as mesmas - como as de esquerda -, embora mudem as fórmulas e símbolos: uma concepção idealista do mundo e do homem; uma consciência crítica de realismo antropológico e social, que valora as comunidades e instituições, como a nação, a família, a propriedade; e que combate a tábua rasa que desconstrói e destrói tudo isto na planificação da utopia. Este é um «corpus» de ideias, uma filosofia política alternativa que deve ser traduzida politicamente nas ideias e na ideologia; e, finalmente, escorar as políticas sectoriais.

Não sei se estes valores são património exclusivo da direita. Por mim, penso que a defesa dos princípios cristãos, do valor da nação como comunidade solidária dos cidadãos e da família e da propriedade, como realização do homem nos afectos e nas coisas e garantia da sua liberdade; esta é a direita com que me identifico - patriótica; realista, solidária, livre, mas consciente de que o bem comum existe e é superior à soma e à subtracção dos bens e interesses individuais.

Neste sentido sou de direita; talvez parte destes valores tivessem sido sustentados pelo Estado Novo; como outros foram pela Primeira República. Mas hoje, trinta anos depois do fim do «fascismo», da descolonização irresponsável, das socializações arbitrárias, das violências do PREC; hoje, num país atrasado, cheio de carências, na cauda da Europa - e tão na cauda pelo menos como estava no «fascismo» - é tempo para pensar e criar, sem medo de fantasmas nem tabus.

Jaime Nogueira Pinto, EXPRESSO, 12.03.2005

(Cortesia “Sexo dos Anjos”)

sexta-feira, abril 08, 2005

O Siciliano e o Imperador e as afinidades electivas

Todas as Constituições, que à maneira das de 1791 , e 92 têm estabelecido suas bases, e se tem querido organizar, a experiência nos tem mostrado, que são totalmente teoréticas e metafísicas, e por isso inexequíveis, assim o prova a França, Espanha, e ultimamente Portugal. Elas não tem feito, como deviam, a felicidade geral; mas sim, depois de uma licenciosa liberdade, ventos, que em uns Países já apareceu, e em outros ainda não tarda a aparecer o Despotismo em um, depois de ter sido exercitado por muitos, sendo consequência necessária, ficarem os Povos reduzidos à triste situação de presenciarem, e sofrerem todos os horrores da Anarquia.”

D. Pedro IV

in DISCURSO, que S. M o Imperador D. Pedro I recitou na abertura da Assembleia Geral, Constituinte, e Legislativa a 3 de Maio de 1823


É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma

Principe Fabrizio Salina

in “Il Gatopardo”, Giuseppe Tomasi, duca di Palma e principe di Lampedusa

Dicas, Conselhos e Ensaios

Agradecido pela dica.

Está bem visto. Afinal, nãoé este o partido que quer continuar a ser “democrata – cristão” contra todas as evidências aqui espelhadas?

O outro Aleph (com as devidas diferenças)

Daquilo que já li e ouvi, estou com a moção de Borges.

Parece-me oportuno que a referida moção não seja acompanhada por nenhuma candidatura à liderança do PSD: é que, como é óbvio, Marques Mendes, futuro líder laranja, vai arder em lume nada brando nos próximos anos.

Apenas a anunciada vitória presidencial de Cavaco acabará com a travessia do deserto e é bom que o PSD reserve uma das suas melhores cabeças para essa altura, aproveitando a boleia vencedora do Professor.

Para já, é fundamental que vice da Goldmann começa a entrosar-se com o aparelho.

Testamento de João Paulo II

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 7 de abril de 2005 (ZENIT.org).- Publicamos o testamento de João Paulo II, publicado esta quinta-feira pela Sala de Imprensa da Santa Sé.
* * *Testamento de 6.3.1979 (e adendos sucessivos) «Totus Tuus ego sum» No nome da Santíssima Trindade. Amém. «Velai, pois, porque não sabeis o dia em que virá vosso Senhor» (Cf. Mateus 24, 42). Estas palavras recordam-me o último chamado que chegará no momento em que o Senhor quiser. Desejo segui-lo e desejo que tudo o que forma parte de minha vida terrena me prepare para este momento. Não sei quando chegará, como que tudo, ponho também este momento nas mãos da Mãe de meu Mestre: «Totus Tuus». Nestas mesmas mãos maternais deixo tudo e todos aqueles com os quais uni minha vida e minha vocação. Nestas mãos deixo sobretudo a Igreja, assim como minha nação e toda a humanidade. Agradeço a todos. A todos peço perdão. Peço também orações para que a Misericórdia de Deus mostre-se maior que minha debilidade e indignidade. Durante os exercícios espirituais reli o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura me levou a escrever este testamento. Não deixo após mim nenhuma propriedade da qual seja necessário tomar disposições. Pelo que se refere às coisas de uso cotidiano que me serviram, peço que se distribuam como se considerar oportuno. Que os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que vele sobre isto Dom Stanislaw, a quem agradeço sua colaboração e ajuda tão longa através dos anos e por ter sido compreensivo. Todos os demais agradecimentos deixo no coração ante Deus, pois é difícil expressá-los. Pelo que se refere ao funeral, repito as mesmas disposições que deixou o Santo Padre Paulo VI [aqui há uma nota na margem: o sepulcro na terra, não em um sarcófago, 13.3.92]. «apud Dominum misericórdia et copiosa apud Eum redemptio» João Paulo II Roma, 6.III.1979
* * *Após a morte, peço santas missas e orações. 5.III.1990
* * *Folha sem data Expresso minha mais profunda confiança em que, apesar de toda minha debilidade, o Senhor me conceda todas as graças necessárias para enfrentar, segundo sua vontade, qualquer tarefa, prova e sofrimento que quer pedir a seu servo, no transcurso da vida. Confio também em que não permita nunca que, através de qualquer atitude minha --palavras, obras ou omissões--, possa trair minhas obrigações nesta santa Sé de Pedro.
* * *24.II – 1.III.1980 Também durante estes exercícios espirituais refleti sobre a verdade do sacerdócio de Cristo na perspectiva deste trânsito que para cada um de nós é o momento da própria morte. Do adeus a este mundo para nascer ao outro, ao mundo futuro, sinal eloqüente [acima acrescenta: decisivo] que é para nós a Ressurreição de Cristo. Li, portanto, testamento registrado do último ano, realizado também durante os exercícios espirituais. Comparei-o com o testamento de meu grande predecessor, o Paulo VI, com esse sublime testemunho de sua morte de cristão e de Papa, e renovei em mim a consciência das questões às quais se refere o testamento registrado de 6.III. 1979, preparado por mim (de maneira mais bem provisória). Hoje, quero acrescentar só isto: que cada um deve ter presente a perspectiva da morte. E deve estar disposto a apresentar-se ante o Senhor e Juiz, e contemporaneamente Redentor e Pai. Eu também tomo em consideração isto continuamente, confiando esse momento decisivo à Mãe de Deus e da Igreja, à Mãe de minha esperança. Os tempos em que vivemos são inenarravelmente difíceis. Fez-se também difícil e tenso o caminho da Igreja, prova característica destes tempos, tanto para os fiéis como para os pastores. Em alguns países, como por exemplo um sobre o qual li informes durante os exercícios espirituais, a Igreja encontra-se em um período de perseguição tal que não é inferior aos dos primeiros séculos, e mais, supera-a pelo nível de crueldade e de ódio: «Sanguis martyrum – semen christianorum». Além disto, muitas pessoas desaparecem inocentemente, também neste país no qual vivemos... Desejo uma vez mais me pôr totalmente nas mãos da graça do Senhor. Ele mesmo decidirá quando e como tenho que terminar minha vida terrena e o ministério pastoral. Na vida e na morte «Totus tuus», mediante a Imaculada. Aceitando já desde agora esta morte, espero que Cristo me dê a graça para o último passo, ou seja, a [minha] Páscoa. Espero que também a faça útil para esta causa mais importante à qual trato de servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana, e nela de todas as nações e povos (entre eles, dirijo-me de maneira particular a minha Pátria terrena); que seja útil para as pessoas que de maneira particular me confiou, para a Igreja, para a glória do mesmo Deus. Não desejo acrescentar nada ao que já escrevi há um ano: só expressar esta disponibilidade e ao mesmo tempo esta confiança, à qual novamente estes exercícios espirituais me dispuseram. João Paulo II
* * *«Totus Tuus ego sum» 5.III.1982 Nos exercícios espirituais deste ano li (em várias ocasiões) o texto do testamento de 6.III.1979. Ainda sigo considerando-o como provisório (não definitivo), deixo-o na forma na qual existe. Não mudo (por agora) nada, nem sequer acrescento nada às disposições que contém. O atentado contra minha vida, em 13.V.1981, em certo sentido me confirmou a exatidão das palavras escritas no período dos exercícios espirituais de 1980 (24.II-1.III). Sinto cada vez mais profundamente que me encontro totalmente nas Mãos de Deus e me ponho continuamente à disposição de meu Senhor, encomendando-me a Ele em sua Imaculada Mãe (Totus Tuus). João Paulo pp. II.
* * *5.III.82 Em relação à última frase de meu testamento de 6.III.1979 («Sobre o lugar --ou seja, o lugar do funeral--, que decida o Colégio Cardinalício e os compatriotas»). Declaro que com isto penso no arcebispo metropolitano da Cracóvia ou no Conselho Geral do Episcopado da Polônia. Enquanto tanto, ao Colégio Cardinalício peço que responda no possível às eventuais petições dos antes mencionados.
* * *1.III.1985 (durante os exercícios espirituais) Volto sobre o que se refere à expressão «Colégio Cardinalício e os compatriotas»: o «Colégio Cardinalício» não tem obrigação alguma de consultar sobre este tema «os compatriotas»; pode fazê-lo se, por algum motivo, considerar justo. JPII
* * *Exercícios espirituais do Jubileu do ano 2000 (12-18.III) [para o testamento] 1. Quando no dia 16 de outubro de 1978 o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o primaz da Polônia, o cardeal Stefan Wyszynski, disse-me: «A tarefa do novo Papa consistirá em introduzir a Igreja no Terceiro Milênio». Não sei se repito exatamente a mesma frase, mas ao menos este era o sentido do que então escutei. Disse isso o homem que passou à história como o primaz do milênio. Um grande primado. Fui testemunha de sua missão, de sua total entrega. De suas lutas: de sua vitória. «A vitória, quando chegar, será uma vitória através de Maria», sempre repetia o primaz do milênio estas palavras de seu predecessor, o cardeal August Hlond. Deste modo, fui preparado em certo sentido para a tarefa que no dia 16 de outubro de 1978 se apresentou ante mim. No momento no qual escrevo estas palavras, o ano jubilar de 2000 já é uma realidade em ato. Na noite de 24 de dezembro de 1999, abriu-se a simbólica Porta do Grande Jubileu na Basílica de São Pedro, depois a de São João de Latrão e a de Santa Maria a Maior --ao final do ano--, e, em 19 de janeiro, a Porta da Basílica de São Paulo Extramuros. Este último acontecimento, por causa de seu caráter ecumênico, ficou gravado na memória de maneira particular. 2. À medida que avança o Ano Jubilar 2000, vai ficando dia a dia a nossas costas o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providência, foi-me concedido viver no difícil século que está ficando no passado e agora, no ano em que minha vida alcança os oitenta anos («octogesima adveniens»), é necessário perguntar-se se não chegou a hora de repetir com o bíblico Simeão: «Nunc dimittis». No dia de 13 de maio de 1981, o dia do atentado contra o Papa durante a audiência geral na praça de São Pedro, a Divina Providência me salvou milagrosamente da morte. O mesmo único Senhor da vida e da morte me prolongou esta vida, em certo sentido voltou a dar-me de novo. A partir deste momento, pertence-lhe ainda mais. Espero que me ajude a reconhecer até quando tenho de continuar este serviço ao que me chamou no dia 16 de outubro de 1978. Peço-lhe que me chame quando Ele mesmo quiser. «Se vivemos, para o Senhor vivemos; e se morremos, para o Senhor morremos... do Senhor somos» (Cf. Romanos 14, 8). Espero que até que possa completar o serviço petrino na Igreja, a Misericórdia de Deus me dê as forças necessárias para este serviço. 3. Como em todos os anos, durante os exercícios espirituais li meu testamento de 6.III.1979. Sigo mantendo as disposições que contém. O que então, e durante os sucessivos exercícios espirituais se acrescentou, reflete a difícil e tensa situação geral que marcou os anos oitenta. Desde o outono do ano 1989, esta situação mudou. A última década do século passado ficou livre das precedentes tensões; isto não significa que não tenha trazido consigo novos problemas e dificuldades. Seja louvada a Providência Divina de maneira particular pelo fato de que o período da assim chamada «guerra fria» terminou sem o violento conflito nuclear, perigo que se aproximava sobre o mundo no período precedente. 4. Ao estar no limiar do terceiro milênio, «in medio Ecclesiae», desejo expressar uma vez mais gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, ao que junto com toda a Igreja, e sobretudo com todo o episcopado, sinto-me em dívida. Estou convencido de que durante muito tempo será concedido às novas gerações recorrer às riquezas que este Concílio do século XX nos ofereceu. Como bispo que participou no acontecimento conciliar desde o primeiro até o último dia, desejo confiar este grande patrimônio a todos os que estão chamados a realizá-lo. Por minha parte, agradeço ao eterno Pastor que me permitiu estar ao serviço desta grandiosíssima causa no transcurso de todos os anos de meu pontificado. «In medio Eccesiae»... desde os primeiros anos do serviço episcopal --precisamente graças ao Concílio-- foi-me permitido experimentar a fraterna comunhão do episcopado. Como sacerdote da arquidiocese de Cracóvia, havia experimentado o que significava a comunhão fraterna do episcopado. O Concílio abriu uma nova dimensão desta experiência. 5. Quantas pessoas deveria mencionar! Provavelmente o Senhor Deus chamou a sua presença a maioria delas. Pelo que se refere aos que ainda se encontram nesta parte, que as palavras deste testamento os recordem, a todos e por toda parte, ali onde se encontrem. Nos mais de vinte anos em que desempenho o serviço petrino “in medio Ecclesiae”, experimentei a benevolência e particularmente fecunda colaboração de tantos cardeais, arcebispos, e bispos, de tantos sacerdotes, de tantas pessoas consagradas – irmãos e irmãs – e, por último, de muitíssimas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no vicariato da diocese de Roma, assim como fora destes ambientes. Como não abraçar com uma agradecida recordação todos os episcopados do mundo, com os quais me encontrei nas visitas «ad limina Apostolorum»! Como não recordar também tantos irmãos cristãos, não-católicos! E o rabino de Roma e tantos representantes das religiões não-cristãs! E os que representam o mundo da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social! 6. À medida que se aproxima o final de minha vida terrena, volto com a memória aos inícios, a meus pais, a meu irmão e a minha irmã (a quem não conheci, pois morreu antes de meu nascimento), à paróquia de Wadowice, onde fui batizado, a essa cidade de meu amor, a meus compatriotas, companheiras e companheiros da escola, da universidade, até os tempos da ocupação, quando trabalhei como operário, e depois à paróquia de Niegowic, à de São Floriano na Cracóvia, à pastoral dos universitários, ao ambiente... a todos os ambientes... à Cracóvia e a Roma... às pessoas que o Senhor me confiou de maneira especial. A todos só quero dizer uma coisa: «Que Deus vos dê a recompensa». «In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum» A.D. 17.III.2000 [Texto original em polonês. Tradução realizada por Zenit a partir da edição italiana distribuída pela Santa Sé]

quarta-feira, abril 06, 2005

Que combate?

Fala-se em combate cultural da Direita, mas parece que este se resume mais a um conjunto de elucubrações de economia política típico dos algoritmos andantes da chamada Direita anarco-libertária, que tem como agenda o “imposto único, o cheque de ensino, o cheque saúde” e lá para o fim a concessão a “uma CPLP politicamente activa”.

Não é que os aspectos económicos não tenham relevo, mas são apenas meios e instrumentos. Se o tal combate se pretende cultural deve começar por explicar em que é que estas propostas contribuirão para criar mais liberdade, autoridade e sobretudo futuro para os portugueses.

A chamada Direita moderna, se quer ser credível, não se pode limitar a debitar ideias desgarradas da Spectator ou do Economist devidamente enquadradas pelas “vacas sagradas” de Hayek, o austríaco que se pretendia Whig mas que destes só usava a peruca.

Como dizia Irving Kristol, na peugada da critica de Oakeshott acerca das receitas expostas em “The Road to Serfdom”: “I had not read that book, and though I have come to admire his later writings in political philosophy and intellectual history, I still haven't read it.”

(E já que se fala do grande filósofo inglês julgo que a melhor tradução para português de “On Being Conservative” seria “O que é um tradicionalista liberal”, designação que pode incluir desde o último Alexandre Herculano a António Sardinha, entre muitos outros).

Posto isto, apesar das diferenças de método, estamos todos do mesmo lado.

Non abbiate paura!

Fratelli e Sorelle! Non abbiate paura di accogliere Cristo e di accettare la sua potestà!

Aiutate il Papa e tutti quanti vogliono servire Cristo e, con la potestà di Cristo, servire l’uomo e l’umanità intera!

Non abbiate paura! Aprite, anzi, spalancate le porte a Cristo!

Alla sua salvatrice potestà aprite i confini degli Stati, i sistemi economici come quelli politici, i vasti campi di cultura, di civiltà, di sviluppo. Non abbiate paura! Cristo sa “cosa è dentro l’uomo”. Solo lui lo sa!


Omelia di Giovanni Paolo II per l'inizio del Pontificato
Domenica, 22 ottobre 1978

sexta-feira, abril 01, 2005

Oração pelo Papa

Ó Deus, que escolhestes o vosso servo João Paulo II sucessor do apóstolo Pedro como pastor de todo o rebanho, atendei as súplicas do vosso povo. Concedei ao que faz as vezes do Cristo na terra continuar na fé seus irmãos para que toda a Igreja se mantenha em comunhão com ele no vínculo da unidade, do amor e da paz até que, em vós, pastor das almas, cheguemos todos à verdade e à vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Amem!


A equipa do ON (constituída por um Judeu e dois Católicos) junta-se em oração pelo Papa João Paulo II.

Beracha

Mi-Sheberach avoteinu v’imoteinu, Avraham v’Sarah, Yitzhak v’Rivkah, Ya’akov, Rachel v’Leah hu y’varekh et Karol Wotyla v’yavi aleihem refuat hanefesh u’refuat haguf yachad im kol cholei amo Yisrael. Barukh atah Hashem, rofeh ha’cholim.

NWM

Oraçao pelo Santo Padre

Ó Deus, que na vossa providência quisestes edificar a vossa Igreja sobre São Pedro, chefe dos apóstolos, fazei que o nosso papa João Paulo II, que constituístes sucessor de Pedro, seja para o vosso povo o princípio e o fundamento visível da unidade da fé e da comunhão na caridade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo.

Amem!

Em comunhão com todos os nossos irmãos em Cristo, acompanho com humildade e em oração o Santo Padre.

Ken Livingstone e o ocaso da democracia

O século XXI trouxe, com uma maior incidência, o regresso de um velho fantasma: o anti semitismo. Um dos personagens que tem sido acusado de anti-semita é o Senhor Ken Livingstone, o Mayor de Londres.

Mr. Livingstone tornou-se famoso pelas suas declarações e pelas suas tomadas de posições extremistas (conotadas com a esquerda). Nos últimos tempos voltou ao Labour Party para vencer as primeiras eleições autárquicas de Londres. Mas vamos aos factos que me levam a escrever umas palavras de aprumo contra este senhor.

Após uma insistência, numa conferência de imprensa, de um jornalista do Daily Mail (jornal conotado com os Tories) na pergunta “How did tonight go?”, Ken resolveu inverter os papeis e perguntar àquele se tinha sido um criminoso de guerra alemão. O jornalista prontamente respondeu que era Judeu e que a pergunta o ofendia pessoalmente. Gentleman Ken prontamente respondeu que mesmo o sendo, continuava a actuar como se fosse um guarda de um campo de concentração. O episódio prolongou-se e fez escândalo na terra de Sua Majestade.

O Primeiro-Ministro Tony Blair afirmou que o Senhor Ken deveria pedir desculpa pelas afirmações. O Board of Deputies of British Jews, na voz do seu Presidente, Henry Grunwald, afirmou que Todos mereciam uma desculpa. Diversos membros do Labour Party distanciaram-se de Livinstone. Não obstante este rol de críticas, o Lord Mayour recusou-se a pedir desculpa e começou a disparar noutra direcção, no Primeiro-Ministro de Israel.

Num artigo publicado no The Guardian, Ken o vermelho resolveu vir dizer que Israel é um Estado racista, que continua a incorrer em acções militares contra os Palestinianos, que Ariel Sharon organiza o terror contra o Povo Palestiniano e começa agora a organizar ataques contra os muçulmanos em geral. Termina o seu artigo escrevendo que o anti semitismo e o racismo devem ser combatidos. Irónico.

A minha opinião vai ao encontro de um artigo publicado no Spectator e que demonstra a realidade de uma Grã-Bretanha em véspera de eleições. O eleitorado Judaico divide-se entre os dois partidos, Labour e Tories. O líder Tory não só é Judeu, como frequenta a Liberal Synagogue, que faz esquina com o Lords Cricket Ground. Com a intervenção da Grã-Bretanha no Iraque, o tradicional “voto Muçulmano” no Labour Party perdeu-se. Não nos podemos esquecer que a Comunidade Muçulmana cresce de ano para ano, representando cerca de 20% do eleitorado. Se juntarmos os cartazes de campanha do Labour Party a ridicularizar as imagens do líder Tory e de um seu assessor (igualmente Judeu) como se fossem porcos, as declarações de Livingstone enquadram-se na época.

Tudo faz sentido quando se ofendem gratuitamente os Judeus, Israel e se defende o hejab. O interesse está no voto e em vencer eleições. Livingstone sabia o que dizia, o objectivo é diminuir os Conservadores e ganhar o eleitorado.

Aqui está o ocaso da democracia, quando ela se resume ao voto.


NWM

sexta-feira, março 18, 2005

A caminho da Eurabia

The demographics are unmistakable: Europe is dying. The wasting disease that has beset this once greatest of civilizations is not physical, however. It is a disease in the realm of the human spirit. David Hart, another theological analyst of contemporary history, calls it the disease of “metaphysical boredom”--boredom with the mystery, passion, and adventure of life itself. Europe, in Hart’s image, is boring itself to death.

And in the process, it is allowing radicalized twenty-first century Muslims--who think of their forebears’ military defeats at Poitiers in 732, Lepanto in 1571, and Vienna in 1683 (as well as their expulsion from Spain in 1492) as temporary reversals en route to Islam’s final triumph in Europe—to imagine that the day of victory is not far off. Not because Europe will be conquered by an invading army marching under the Prophet’s banners, but because Europe, having depopulated itself out of boredom and culturally disarmed itself in the process, will have handed the future over to those Islamic immigrants who will create what some scholars call “Eurabia”--the European continent as a cultural and political extension of the Arab-Islamic world. Should that happen, the irony would be unmistakable: the drama of atheistic humanism, emptying Europe of its soul, would have played itself out in the triumph of a thoroughly nonhumanistic theism. Europe’s contemporary crisis of civilizational morale would reach its bitter conclusion when Notre-Dame becomes Hagia Sophia on the Seine--another great Christian church become an Islamic museum. At which point, we may be sure, the human rights proclaimed by those narrow secularists who insist that a culture’s spiritual aspirations have nothing to do with its politics would be in the gravest danger.


George Weigel